sexta-feira, 18 de maio de 2012


RETICENTE

Desistências me conformam.
Saliências nos concordam.
Nasço dessas imanências
a que o tempo nos condena.

Trago o fardo imensurável
de amar o inefável,
de colher nas coisas mudas
uns pedaços de silêncio.

Sei do riso das palavras,
da carícia não vingada,
do perfume da ausência...
Sei de nada.

Guardo as chagas da poesia
que desfaz e metrifica
nosso olho, nossa sina.
Assassina!

Tive uns séculos inteiros
entre o gozo e o desapego,
entre o toque e o aceno –
entreato, entrelinhas.

Entre tanto permaneço:
faço casa no ainda
que se diz na hora finda
que precede o nosso beijo.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

PAUTA

Palavra tem dessas coisas:
revolve tudo,
constrói uns mundos,
não leva nada.

Tentei fazer poesia e me desfiz um pouco.

– Quantas vidas leva um verso?
– A tua.

De nada me valeu teu nome –
os nomes são pessoas longe;
de perto são apenas nomes.

Ontem eu me fiz palavra.
Ontem eu morri um tanto.
Hoje sou apenas pauta.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

MENSAGEM AO AMANHÃ

Ontem eu quis as estrelas.
(Hoje acordei menos chão.)

Onde o tempo se rende,
Quando a pele nos funde,
nossos silêncios se entendem.

Quantas palavras se escondem
nos restos de um dia recente?
Quantos caminhos contidos
no gesto de adeus indeciso?

Sobre teu corpo futuro
jazem os sonhos infantes,
nasce a minha saudade.

– Quem assina?

Hoje eu sou as estrelas.
Ontem passou num instante.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

(Ex-moradores da comunidade Pinheirinho, São José dos Campos - SP. Após a desocupação pela Polícia Militar, algumas famílias se refugiaram em uma igreja. Alguns dias depois já estavam expulsos de lá também.)


PRECE

Seja tua a minha dor pelo tempo deste verso,
que a palavra no reverso é procura e

desencontro.

(Que seria senão isto: o vazio preenchido
com os dias,
com os rios,
com o cheiro do silêncio... ecoando nas retinas?)

Seja pele a minha letra no roçar de tua vista;
tu insista,
me alcança
entre a tinta e o papel,
entre o mesmo e a mudança.

Sobre a vaga celulose universos me disputam.
Não pertenço – permaneço
à espera do chamado
de outras vidas,
outros mundos.

Seja som a minha ausência no momento mais propício
ao carinho,
ao suplício,
ao encontro que marcamos.

O sorriso é nossa rima;
o arquejo metrifica
nossa lide,
nossa sina
assassina.

Seja só um estribilho meu bramido
por socorro;
seja toque a minha prece
no teu corpo;

Seja toda a existência um minuto de poesia.
Eu pereça a cada estrofe,
e renasça em teu ouvido.

domingo, 22 de janeiro de 2012

MEIO DA RUA
(Aos guerreiros de Pinheirinho)

No meio do rio se faz torvelinhos.
No meio da rua morreu a menina.
No seio – tão nua! – um traço de rubro;
receio de culpa, desejo de tinta.

Nas linhas da pele, um pouco de tudo:
Navalha, miséria, secura, partida;
No rosto um sorriso fingido em batom
Narrava uma história de morte bem-vinda.

Narizes à toa entorno do corpo,
Ninguém lhe soubesse o nome, a sina.
Nem susto, nem prece, nem grito de dor;
Nenhum sobreaviso por trás das retinas.

No meio suspiro do último instante,
Nenhum desapego, nenhum burburinho.
No meio do dia morreu a menina.
Agora, na rua se faz torvelinhos.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

DUAS

A vida semeou o tempo.
O tempo floresceu no verbo.
O verbo se desfez no vento
do sopro burilando o lábio.

O lábio cometeu o beijo.
O beijo condensou os corpos.
Os corpos se fizeram mundos.
E o mundo esperou sentado.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

EPOPÉIA DO ESGOTO

Uma barata lambe os meus pés.
Ela desce.
Ela enxerga no escuro
minhas mágoas,
minhas fezes.

Ela ingere meus pedaços
de mentira,
de pigarro.
Ela beija a minha pele
carcomida sob os ralos.

Ela anda sobre as horas
vomitadas pelo acaso.
Reconhece na descarga
os meus dias infecundos.

Ela sobe pelos muros
de tijolos e recato.
Arremete cada passo
de encontro ao absurdo.

Ela tece umas redes
obscuras com os ratos.
Enaltece essas traças
cujos corpos eu expurgo.

Sua deixa é o descaso,
sua casa é o debaixo,
sua lide é a sujeira
recusada pelo mundo.

Trinta anos de chumaços
de cabelo nos separam.
E conquanto a desconheça
pelos cantos do meu quarto,
ela sabe cada verme
que aguarda meu cadáver.

Ela agora é um pronome
definido,
desinfecto,
chafurdando na limpeza
do silêncio das palavras.

E ainda desatenta
ao sujeito,
aos dejetos,
ela aceita por completo
toda a vida que eu rejeito.